Ele sempre faz isso
fernando da silva trevisan
Duas horas da tarde e ele caminhava pelas ruas cheias - era uma terça-feira. Talvez por haver pessoas demais para observar, talvez por seus próprios pensamentos, mantinha a cabeça baixa, os olhos fixos na calçada.
Sentiu, mais do que viu, a presença dela. Coração disparado, parou e ergueu os olhos. Cabelos negros até a cintura, pele branca quase brilhando. Os olhos verdes, radiantes, contrastando tanto com a pele como com os lábios vermelhos e grossos - porém não grandes.
Não olhava diretamente para ele e vinha caminhando, sorrindo, os dentes quase perfeitos à mostra. Havia apenas uma falha em um dente da frente, que era praticamente um charme nela. Quando fixou os olhos nele, o sorriso desfez-se.
Sentiu-se isolado e triste. Balbuciou algo enquanto ela passava, mas nem ele conseguiu entender. Seguiu-a, declarando-se, dizendo que a amava. Ela continuava o caminho como se ele não existisse.
Trombava nas pessoas para poder acompanhá-la - era como se todos abrissem espaço para a passagem da mais linda das mulheres. Ele a circulava, andava ao lado, andava à frente, mas não tinha coragem de tocá-la, de fazê-la parar e dar-lhe atenção.
Então, em uma esquina, ele teve aquela sensação familiar. Não sabia de onde conhecia essa sensação. Sentiu vontade de pará-la ali, de fazer com que não continuasse, de fazê-la entender, ali e agora, o quanto gostava dela e o quanto a queria ao seu lado.
Mas não fez nada - e nesse instante compreendeu. Como da outra vez, ele não agiu, e ela atravessou a rua, foi atropelada, e morreu, como sempre acontecia.
Ficou sentado junto ao poste, agachado, encolhido, chorando. O dono da farmácia em frente comentou, tristemente, com um funcionário: desde que ela se foi, ele sempre faz isso...
Fernando da Silva Trevisan publica esporadicamente no 5v (vvvvv.blogspot.com) e pode ser encontrado no e-mail fernandotrevisan@gmail.com.