Suicídio em três atos
fábio coelho
ATO Terceiro
Ele aspirou a fumaça com dificuldade, com extrema dificuldade, mas irresistível. O pulmão à muito tempo pedia uma trégua, mas como resistir? Ele era uma cena de um filme noir qualquer, encostado num poste, sob a luz do mesmo, fumando um cigarro como não tivesse mais nada pra fazer as duas da madrugada. Era evidente o prazer com que ele satisfazia seu vício, talvez porque soubesse que morreria logo nesta noite fria e escura.
Uma geada se anunciava no ar, cortava os pulmões mais que maltratados. Por que ele não foi embora? Poderia ter desistido, poderia ter abdicado, poderia ter fugido! Ela não apareceu no horário marcado, porque ele esperou? O que o fez pensar que ela viria depois pra cumprir o prometido? Talvez fosse um sexto sentido incipiente que despertou na beira do abismo, mas devia de ser burrice mesmo.
Ela se aproximou com calma, o vento que balançava o mar, cruelmente balançava as ondas negras dos cabelos dela, em uma afronta a ele! Por um instante ela parou e contemplou o mar ao lado dele. Então falou.
Ele não respondeu, não queria saber se ela achava o mar melancólico nessas noites frias! Queria saber se ela o faria! Ele precisava desse expurgo! Ele precisava, por que ela o torturava?
Ele parou de escutá-la por um instante, hipnotizado pela beleza negra de sua pele, pelas amêndoas de seus olhos, pela roupa colada insinuando uma volúpia que jamais viria a tona de novo. Não para ele.
Os esforços dela pararam. Ela desistiu de falar. Estacou diante dele com um olhar de pena nos olhos. Ele nem percebeu, cego que estava pela necessidade de perdê-la, cego pelo desejo de sofrer. Seus delírios românticos enchiam-no de imagens de amantes sofredores, evanescentes e belos. Nem percebeu também o olhar de carinho nos olhos dela, quando ela esticou os braços querendo abraçá-lo!
Não! Ele não quer a piedade dela! Ele prefere a dor! Por que ela não terminava logo com ele? Ele não é capaz de fazê-lo, ela precisava tomar essa decisão pelo bem dos dois, mesmo que isso significasse uma dor escruciante e eterna para ambos! Não adiantava perdoá-lo, ele era um ser maldito, pecaminoso e pervertido, precisava ser punido! Ela o chamou de louco, estava aturdida devido a inversão que ele fez, afinal fora ela que o traíra! Como ela ousava questionar ele? Não se questionam loucos e fanáticos, eles tornam-se assassinos e suicidas.
O vento assobiou mais forte, enregelou os dois contendores que um dia foram amantes, cortou a discussão ao meio.
Ela se retirou.
Ele acendeu mais um cigarro. Foi o último cigarro dele.
ATO Segundo
Como eu poderia ter me enganado assim? Ele me prometeu as estrelas, a Lua, o Sol, o mundo e o coração. Prometeu me respeitar e me amar, essas coisas todas! Então de repente percebi que ele me apresentava a conta.
Ele chegou. Melancólico como sempre, me tomou nos braços qual cavaleiro andante tomando sua donzela. O beijo também suave como sempre, doce como mel, recatado como convinha a um gentleman.
-Te amo! E vou te amar pela eternidade! Mesmo quando me machucares como ontem, eu te perdoarei!
A mesma ladainha, 'eu o mais bonzinho de todos e vou sempre perdoar seus erros, e nunca errarei com você'.
-Quer dizer que te machuco por não ser pura e casta?
Ainda nos braços dele.
-Não espere que eu me agrade da sua devassidão anterior ao nosso namoro.
Caralho! Ele era um grande filho da puta!
-Eu realmente não espero, mas você comprou um pacote fechado meu caro colega, vai ter de aceitá-lo por inteiro!
E como ele se sai com essa?
-Como já disse, te perdoarei tudo, porque te amo! Aceito tua pureza e teu amor, mas esse demônio que ronda atrás de teus olhos, esse só me machuca.
Será que eu perdôo ele? Será que eu aceito isso? Será que sou tão devassa assim? Aff, como eu poderia ter alguém tão dedicado a mim assim?
-Então, o que você espera? Devo apagar meu passado?
O que fazer?
-Suportarei essa estaca em nome de nosso amor!
Melancólico, gótico, infinitamente romântico!
Nos beijamos...
ATO Primeiro
Oi, nem sei seu nome, nem você o meu, mas queria te dizer em poesia o que com minha boca foi impossível.
A Dama de Ébano
Quando ao dobrar a esquina eu enxergava ao longe o cabelo esvoaçante... era você.
Quando as pessoas me abraçavam com sua hipocrisia
eu pensava que poderia ser você,
que poderia ser minha Dama de Ébano,
com sua obsidiana honesta em sua melancolia,
mimetizando o Céu em sua pele!
Pelo menos esta me amaria sem reservas ou máscaras
desprezando os meros mortais que ousaram
corpuscar a beleza do amor com suas mentiras,
ofuscando-os com o brilho de sua alma pura e perfeita.
Ó Dama de Ébano, te adoro e venero
faz de mim teu servo
faz de nosso amor a seita do teu templo
faz de nossas vidas, paixão!
De um apaixonado
(Se quiser me encontrar, eu estudo no Primeiro Período de Matemática )
PÓSLUDIO
'(...)
Se hoje fujo de um abraço
é porque não sei em mim onde estão meus braços.'
(Bento Nascimento)