sábado, 8 de maio de 2004. edição 1

Interrogatório
carlos eduardo krambeck de souza

- E então? Juras lealdade a santa madre Igreja? O velho de roupas cerimoniais pretas mantinha-se ereto diante do acusado. Seu rosto não apresentava nenhum sinal de emoções.

- Eu sou leal apenas a Deus e isto deveria ser mais do o suficiente para assegurar-lhes q eu nada faria contra a sua igreja. O acusado, em trajes mundanos, mantinha seus olhos nos do inquisidor e este pareceu irritar-se por um momento.

- Heresia! Sabes muito bem q é aos seus superiores q deves lealdade. Assim era antes e sempre será! Não me desafies! Sei bem de teus feitos, mas também sei de teus crimes!

- Não seguiria tuas tolas ordens nem q fostes o último dos homens. Se os outros q dizem servir a Deus o querem fazer q o façam, mas lembrem-se que "se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova(Mat15,14)". O inquisitor olhava abismado para o prisioneiro não acreditando em tamanha audácia.

Um forte golpe de punho cerrado é ouvido na sala escura e úmida. Sangue escorre dos lábios de um homem q já fora um dos pilares da igreja em toda a região norte da Europa.

Um segundo sacerdote de aparência mais branda e olhos cansados, caminha até uma das tochas q iluminam o recinto.

- Esta é a lista de todos os teus atos contra a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. És acusado de manter um culto de bruxas para teu próprio deleite. O que alegas?

- Inocente! Não vês q sob meu controle essas almas atormentadas jamais fariam mal a alguém?

- Há! O tempo ao lado do demônio te tornou vaidoso! O inquisitor não parecia disposto a ouvir nada menos q uma confissão.

- É possível. Disse o acusado. Mas isso não muda o fato de q eu fui o único q já conseguiu domar tais feras. Não vês q elas apenas adoram a uma deusa inexistente q representa a terra e a natureza? Deixe q elas dancem nuas ao redor de suas fogueiras, deixe q elas se sintam senhoras de tudo q as cerca, deixe q misturem suas ervas! Eu lhes asseguro que muito eu já vi e muito já me foi feito, e mesmo assim cá estou eu, de livre e espontânea vontade, respondendo com honestidade as suas perguntas. Não deixem q o ódio por estas mulheres transforme vocês em assassinos.

Outro golpe é desferido.

- E como você conseguiu domar estes espíritos selvagens?

- Convencendo-as de q são livres. Um leve sorriso surge no semblante sangrento do acusado. E, por alguns instantes, a dúvida baila diante do inquisitor, mas é rapidamente repelida. Esse ódio é muito mais antigo do q se pode imaginar e não será facilmente esquecido.

O segundo sacerdote prossegue.

- És acusado de estudar e praticar as artes negras da bruxaria. O que alegas?

- Inocente. Pratiquei sim estes atos. Estudei a fundo todas as formas de magia. De q outra forma eu poderia entender e reconhecer o seu funcionamento no rebanho? Como poderia eu saber q um nobre está enfeitiçado por uma criada, se eu mesmo não soubesse que isso pode ser feito? Porque temes o diabo ao invés de enfrenta-lo?

- Questionas os métodos da Igreja? Não sabes tu q nunca antes uma única religião esteve presente em tantas partes dessa terra pagã? Não vez q em breve toda Europa será una com Deus todo poderoso e viverá sob o nosso desígnio? O inquisitor parecia quase ver este futuro "maravilhoso" a sua frente.

- "Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?(Mat17,26)"

O silêncio toma o ambiente. De certa forma todos os quatro presentes sabem q existe muita verdade naquilo q o acusado diz, mesmo q não tenham coragem de admitir nem para si mesmos isso.

- És acusado também de consultar videntes em busca de informações sobre o passado. O que alegas?

- Inocente. Visitei sim uma velha q vivia nas florestas ao sul, e perguntei-lhe muita coisa q só a mim interessam. Não notei nenhum sinal da presença do demônio e por isso não relatei o fato aos meus superiores.

- E o que te disse a velha bruxa? O inquisitor estava disposto a provocar o acusado até q este explodisse e revelasse a verdade.

- Eu já vivi antes nestas terras e em outras. Que minha alma imortal se recusa a se manter muito tempo longe deste mundo e q eu já estive ligado a grande mãe como ela estava. Ou seja, nada q tenha a menor relevância neste caso.

- Aí é q te enganas! Tem relevância sim, pois essas são palavras de uma bruxa e sabes lá q encantos satânicos foram desferidos junto a elas.

Silêncio novamente. Ao segundo sacerdote parecia q este julgamento era apenas uma questão pessoal entre o inquisitor e o acusado.

- És acusado de desposar secretamente uma bruxa. O que alegas?

- Inocente. Eu quebrei o celibato como todos nesta sala já quebraram. A união aconteceu segundo os ritos e tradições do povo dela e neste exato momento ela está morta. Fui eu quem presidiu o inquérito e eu q determinei a pena, creio q isso em si já deixe bem claro quais eram as minhas intenções ao me expor a tamanho risco.

- Queres q eu acredite q todas as perversões q praticastes com este demônio vermelho foram apenas para condena-la? Mas o inquisitor já sabia a resposta.

- Por quaisquer meios necessários. Disse o acusado. Assim o fiz e faria de novo, para q este mal seja expurgado. Já mentes demais caírem sob seu julgo, mas não houve outra forma de vence-la senão esta. O que querias q eu fizesse? Deixasse q ela partisse impune?

- Eu reconheço as suas vitórias, mas não podes ir contra tudo aquilo q prega a santa Igreja.

Impaciente com as constantes discussões o segundo sacerdote conclui.

- Por fim, és acusado de viver por meses em pecado. Fostes a floresta e de lá só retornasses muito tempo depois, abalado e ferido, perseguido por feras selvagens. O que alegas?

- Culpado! Uma lágrima escorre suavemente pelo rosto do acusado, a cabeça baixa, sem orgulho e sem forças.

- Enfim! Exclama triunfante o inquisitor. Isto não tens como negar! Bem sabes q nada justifica teus atos! Mesmo tendo vós retornado a mesma floresta, tochas em punho, com um exército a te seguir. Mesmo q tenhas quebrado as pedras e altares, mesmo q tenhas capturado a bruxa e q ela agora seja apenas um punhado de cinzas, mesmo assim sabes q teus atos não tem perdão.

- Sim, eu sei. Pois saibam vós q nunca antes me senti tão vivo, e q ela valia o risco de ser punido como eu estou sendo.

- Isso é mais do q o suficiente para mim. Chame os guardas, este homem será executado pela manhã.

O segundo sacerdote assente com um leve movimento da cabeça. Avança até o inquisitor e lhe entrega uma carta com o selo papal.

- O que é isto? Uma sobra de medo nos olhos.

- Se me permite. Disse o acusado. Todo este interrogatório foi apenas para satisfazer aos seus anseios, pois antes mesmo de ser preso eu já havia comunicado ao santo homem, o papa, da sua conduta equivocada.

Abrindo a carta o inquisitor encara a dura verdade.

- O que dissestes ao santo homem?

- Não muito. Você há de convir q mesmo ele já havia ouvido falar dos meus feitos em prol da igreja. E que, como grande gênio de nossa época, ele não abriria mão dos meus talentos tão facilmente.

- Mas você não pode continuar sendo um de nós! Seria um escândalo!

- Eu sei. Por isso q a partir de amanhã eu serei apenas um assistente leigo nos inquéritos de bruxaria e satanismo. E provavelmente condenarei em semanas mais infiéis do q vc em toda a sua carreira. O sorriso lentamente voltando ao rosto do não mais acusado.

Os dois sacerdotes deixam o recinto num rompante. Alguns instantes se passam. Um vulto feminino sai das sombras e caminha como um gato até o homem preso a cadeira de interrogatório.

- Fizestes como o prometido. Agora eu acredito nas suas palavras. Só um homem q ame a mim e as minhas acima de tudo sacrificaria todo o seu mundo para nos proteger.

- Eu lhe disse. O que eu fiz até hoje, 412 mulheres inocentes enviadas as chamas, é crime demais para q eu me redima em uma só vida, mas eu tentarei começar por esta.

- Não nos veremos novamente, e vc sabe pq, mas espero q voltemos a nos encontrar em outras terras e em outros tempos.

Uma brisa sopra vinda de lugar algum e apaga as tochas, levando com a luz aquela q estivera com o prisioneiro o tempo todo.

No escuro ele ri, uma risada de realização, pois poucos homens sabem o quanto é bom enganar deus e diabo.


Carlos Eduardo Krambeck de Souza, vulgo Carl, é escritor em raros momentos de inspiração e maníaco em tempo integral. Jogador de rpg a mais de uma década, viciado em leitura e estudioso da mente humana.
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