SentinEla

Seu corpo abatido estava prostrado ao chão. Ela, que sempre vivera dentro de uma carapaça, sentia em seus ossos a exaustão de carregar o peso desta. Após anos vivendo enclausurada e envolta em barreiras tão sólidas, a casca se desgastara e rachaduras surgiram por toda a sua superfície. Ela estava convicta de que era necessário se desprender, como uma aranha se liberta de seu exoesqueleto, uma vez que este começa a restringir seus movimentos. Ela percebia que sua veste de quitina – que por tantas vezes lhe protegera dos impactos que teriam-na esmagado – agora tornara-se obsoleta: a engessara e obstruíra qualquer possibilidade de crescimento.

Pela primeira vez, desde que sua consciência permitira lembrar, Ela despiu-se de suas muralhas. Como uma ave, era preciso esforço para que fosse possível quebrar a casca por dentro, e só assim poder ver a luz incandescente do sol. Ela tinha medo do mundo – há muito esquecido e desconhecido – que lhe aguardava do outro lado, mas também sabia que não havia outro caminho se não quisesse sufocar e ruir.

Fatigada, após se soltar de sua antiga pele, Ela via os fragmentos de aço caídos ao seu entorno – o jeito que ainda reluziam o brilho do sol, mesmo que em sua superfície gasta e opaca. Ela não conseguia recordar quando fora a última vez que se sentira tão vulnerável. Ela era uma tartaruga marinha recém nascida, numa corrida desenfreada em direção ao mar, que tentava de qualquer maneira escapar da seleção natural que aguardava seu bando poucos passos à frente.

A pele d’Ela agora era como um papiro, tão fina e frágil que poderia se partir. Por sua extensão existiam feridas e hematomas, que compunham na tela branca de seu corpo um quadro abstrato – em tons de roxos, vermelhos e verdes – dignos de Pollock. A mesma armadura que usara para proteger-se também a machucara. Entorpecido, seu corpo se mantinha  imóvel.

Um manto diáfano desceu da atmosfera e cobriu por completo o corpo d’Ela. Como um corte de organza, seu brilho lunar branco-perolado se deixava trespassar pelo resplandecer do dia. Ela estava fascinada com a beleza hipnótica do véu, quando este deslizou suavemente por sobre sua epiderme. Depois de tantos anos, Ela pode sentir novamente. Sentiu o toque suave e gélido – tal qual o da seda – que lhe causou cócegas e eriçou os pelos de seus membros.

Sentiu a umidade do solo em contato com seu corpo, a superfície acidentada na qual repousava – os cascalhos, pedregulhos e raízes no chão que faziam força contrária ao seu peso e lhe arranhavam. Ela sentiu o cheiro da grama áspera que lhe contornava, viu o farfalhar dos galhos de árvore que lhe faziam sombra e os dentes-de-leão que se desfaziam ao vento.

A brisa cálida fez seus longos cabelos negros dançarem um tango, ainda que a música que os regia fosse o afável som da vegetação, dos pássaros e da correnteza de um riacho próximo. As notas dos elementos, quando unidas, compunham uma rapsódia impressionista que acalentava o coração d’Ela

Um besouro azul-metálico escalou o antebraço d’Ela. As formigas à sua volta contornaram-na. Um pernilongo lhe bebeu o sangue e deixou pra trás um ardor como resquício de sua presença. Ela era observada pelos pássaros nas copas das árvores e pequenos roedores, curiosos, timidamente se aproximavam.

Ela, completamente nua e inerte, sentia-se totalmente exposta. Começou a sentir, suavemente, uma leve formigação nas extremidades de seus pés e mãos, que subiu pelo seu corpo, restaurando sua capacidade de movimento. Havia todo um universo inexplorado que poderia lhe propiciar felicidade e dor. Como um recém-nascido, ela entrou em contato com um mundo completamente novo e cheio de possibilidades – estava temerosa e entusiasmada. Ela sabia o que devia fazer: se erguer, caminhar e desbravar. Ela nunca estivera tão desprotegida. Ela estava completamente vulnerável, porém jamais fora mais forte.